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Anemoia: por que sentimos saudade de uma época que nunca vivemos?

Anemoia: por que sentimos saudade de uma época que nunca vivemos?

Nas últimas semanas, uma pergunta aparentemente simples tomou conta dos Stories:

“Chat, como eu seria nos anos 80?”

A gente entrega uma fotografia atual para a inteligência artificial e, alguns segundos depois, aparece com cabelo armado, ombreiras, maquiagem, jeans, acessórios exagerados e aquele acabamento meio granulado que imediatamente grita: anos 80.

Eu também entrei na brincadeira.

E depois de me ver devidamente transportada para 1985, fiquei pensando que havia uma coisa mais interessante acontecendo ali do que simplesmente mais uma trend.

Por que tanta gente quer se enxergar dentro de uma época que já passou?

E mais: por que pessoas que nem viveram os anos 80 também parecem ter algum tipo de vínculo emocional com aquela década?

Existe até uma palavra criada para essa sensação.

Anemoia: a saudade de uma memória que nunca foi sua

O termo é anemoia.

Ele foi criado pelo escritor John Koenig no projeto The Dictionary of Obscure Sorrows, que começou como um blog em 2009 e depois virou livro. A proposta de Koenig é inventar palavras para sentimentos e experiências que reconhecemos, mas para os quais nem sempre existe um termo específico. A editora Simon & Schuster descreve anemoia justamente como a nostalgia provocada por um tempo que nunca foi vivido pela pessoa.

Aqui vale uma observação importante: anemoia não é um diagnóstico psicológico nem um conceito científico estabelecido. É um neologismo literário.

Ainda assim, a palavra encontrou espaço porque descreve muito bem uma sensação bastante fácil de reconhecer.

Você não estava lá.

Mas conhece as músicas. Reconhece determinadas roupas. Sabe como eram as fotografias. Já viu os carros, os móveis, os brinquedos, os aparelhos eletrônicos, os filmes e os videoclipes.

De tanto encontrar uma época nas histórias, nas imagens e na cultura, ela começa a parecer familiar.

Mesmo sem fazer parte da sua própria memória.

E por que os anos 80 aparecem tanto?

Os anos 80 deixaram uma quantidade enorme de códigos visuais e culturais que continuam circulando.

Fita cassete. Vinil. Fliperama. Polaroid. VHS. Videoclipe. Sintetizador. Jeans. Ombreira. Cores fortes. Computadores domésticos. Capas de discos. Revistas.

Quem nasceu depois daquela década continuou encontrando tudo isso em filmes, séries, músicas, fotografias, moda, publicidade e, claro, nas histórias contadas por quem realmente esteve lá.

Por isso é perfeitamente possível não ter vivido os anos 80 e possuir uma imagem bastante detalhada deles.

Essa imagem, porém, não é a década inteira.

E aí a conversa começa a ficar mais interessante.

A gente também edita o passado

Quando alguém diz que gostaria de ter vivido nos anos 80, dificilmente está pedindo o pacote completo.

Normalmente aparecem algumas partes muito específicas.

Esperar uma fotografia revelar.

Ouvir um disco inteiro.

Entrar numa locadora sem saber exatamente o que ia levar.

Guardar ingressos, fitas, revistas e cartas.

Ter menos opções.

Não fotografar cada refeição, passeio, show e encontro.

Só que os anos 80 também tinham um monte de inconvenientes que ninguém anda particularmente empenhado em ressuscitar.

A memória cultural funciona um pouco como um bom editor: algumas cenas ficam, outras saem convenientemente do enquadramento.

E isso vale tanto para quem viveu a época quanto para quem a conheceu depois.

Quem estava lá sente nostalgia de experiências reais, mas também seleciona o que merece ser lembrado.

Quem não estava constrói esse passado a partir das partes que chegaram até o presente.

A tecnologia mais nova nos levando de volta

Foi justamente por isso que achei tão boa a ironia da trend que apareceu no Instagram no início de setembro de 2026.

As redes ficaram cheias de pessoas usando inteligência artificial para gerar retratos de como seriam nos anos 80. UOL e CNN Brasil registraram a tendência naquele momento, com usuários recriando cabelos, roupas, cenários e até a aparência das fotografias analógicas da década.

A procura foi grande o suficiente para que a Exame relatasse um pico na geração de imagens do ChatGPT durante a viralização da brincadeira.

Tem uma ironia maravilhosa nisso:

estamos usando inteligência artificial para imaginar como seria nossa vida antes dela existir.

Uma tecnologia de 2026 recriando um passado analógico que, em muitos casos, a própria pessoa nunca conheceu.

Se alguém precisasse de uma imagem para explicar anemoia, a internet acabou de produzir milhares.

Mas será que queremos mesmo voltar?

Eu vivi os anos 80.

E gosto de internet.

Gosto de tecnologia.

Não pretendo trocar meu acesso imediato à informação por uma enciclopédia de vários volumes nem esperar uma semana para descobrir se uma fotografia ficou boa.

Também não sinto nenhuma necessidade de reencontrar vários outros inconvenientes daquela época.

Mas algumas coisas daquele mundo analógico ainda fazem falta.

Esperar um pouco.

Escolher em vez de acumular.

Ouvir alguma coisa até o fim.

Ter um objeto nas mãos.

Prestar atenção sem que outra coisa esteja piscando na tela ao lado.

Viver uma experiência sem precisar transformá-la imediatamente em conteúdo.

Isso também ajuda a entender por que objetos considerados ultrapassados continuam encontrando novos públicos. Discos, câmeras de filme e outras experiências físicas voltaram a atrair consumidores que cresceram em um ambiente essencialmente digital; reportagens recentes têm registrado esse interesse especialmente entre jovens.

Não significa que estejamos todos fazendo as malas para 1985.

O passado não precisa voltar inteiro para algumas coisas dele fazerem falta.

Saudade do que viveu ou do que não viveu?

Para a Geração X, os anos 80 são memória.

Para muita gente mais nova, são referência.

E existe uma área enorme entre essas duas coisas onde música, moda, objetos, histórias e imagens continuam circulando de geração em geração.

É provavelmente por isso que alguém pode olhar uma fita cassete sem nunca ter rebobinado uma com uma caneta e, ainda assim, sentir alguma coisa.

Uma pessoa lembra.

A outra imagina.

As duas conseguem estabelecer uma relação com aquele passado.

A palavra criada por John Koenig apenas colocou um nome curioso nessa sensação.

Anemoia.

Agora fiquei curiosa:

você sente saudade do que viveu ou do que não viveu?

 

Conta nos comentários.

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Fontes:
Simon & Schuster — The Dictionary of Obscure Sorrows, John Koenig.
CNN Brasil — “Já imaginou como você seria nos anos 80? Entenda a trend e veja como fazer”, 8 set. 2026.
UOL Tilt — “Trend dos anos 80: como usar o ChatGPT para fazer tendência do Instagram”, 8 set. 2026.
Exame — “Trend de ‘como eu seria nos anos 80’ faz ChatGPT ficar instável”, 8 set. 2026.