Como a gente aprendia sem tutorial — e por que sempre sobrava uma peça
Hoje, quando alguma coisa para de funcionar, a primeira providência é procurar um tutorial.
Como trocar. Como abrir. Como fechar. Como configurar. Como consertar o que você quebrou tentando seguir outro tutorial.
Antes, o método era diferente.
A gente mexia.
Não porque soubesse o que estava fazendo. Nem porque a nossa geração tivesse nascido com algum conhecimento secreto sobre eletrônica, mecânica ou manutenção de eletrodomésticos.
A gente mexia porque não tinha tutorial mesmo.
Primeiro, aperte todos os botões
O começo de qualquer investigação era simples: apertar tudo o que pudesse ser apertado.
Se não funcionasse, desligava e ligava novamente.
Se continuasse sem funcionar, tirava da tomada.
Esperava alguns segundos.
Colocava de volta.
Nesse ponto, já nos considerávamos praticamente técnicos autorizados.
Havia também recursos mais avançados: dar uma batidinha do lado, mexer no fio, trocar de posição e assoprar alguma parte do aparelho sem nenhuma comprovação de que aquilo pudesse ajudar.
Às vezes funcionava.
E uma única tentativa bem-sucedida era suficiente para transformar uma coincidência em método científico.
Se não funcionou, desmonte
Quando apertar todos os botões não resolvia, começava a segunda fase: abrir o aparelho.
A decisão era tomada com uma confiança completamente incompatível com o nosso conhecimento.
Bastava encontrar uma chave de fenda e pronto. A partir dali, qualquer objeto fechado parecia estar apenas escondendo de nós uma solução muito simples.
Abríamos controles, rádios, brinquedos, relógios, carrinhos e tudo o que tivesse parafusos acessíveis.
O problema nunca foi desmontar.
O problema era lembrar onde cada coisa ficava depois.
Por isso, todo conserto doméstico tinha um momento decisivo: aquele em que o objeto já estava montado, aparentemente inteiro, mas havia uma peça sobre a mesa.
A peça que sobrou nunca era sinal de erro.
Era desnecessária.
Os videogames foram uma grande escola de tentativa e erro
Nos jogos, o método de aprendizado era o mesmo.
Não existia a possibilidade de assistir a vinte minutos de alguém explicando os comandos antes de começar. A gente pegava o controle, apertava todos os botões e observava o que acontecia.
Às vezes o personagem pulava.
Às vezes atacava.
Às vezes ficava agachado num canto enquanto o adversário acabava com ele.
Com o tempo, descobríamos os movimentos, decorávamos combinações e aprendíamos durante o jogo. Não era um processo organizado. Era uma mistura de curiosidade, insistência e falta de opção.
Talvez seja por isso que um controle ainda represente tão bem aquela época: antes de saber o que cada botão fazia, a gente já tinha apertado todos.
Para quem também aprendeu jogando na base da tentativa e erro: [conheça a estampa do controle].
A verdade que precisamos contar para a Geração Z
É tentador olhar para essa história e concluir que éramos mais independentes, habilidosos ou preparados para resolver problemas.
Mas vamos manter alguma honestidade.
Muitas vezes a gente não consertava.
A gente piorava.
Quebrava a trava que não sabia que existia, perdia um parafuso, encaixava alguma coisa ao contrário e depois deixava tudo exatamente onde estava, na esperança de que ninguém percebesse.
Não aprendíamos sem tutorial porque éramos melhores.
Aprendíamos sem tutorial porque a alternativa era descobrir sozinhos, pedir ajuda a alguém que talvez também não soubesse ou simplesmente desistir.
A falta de instrução nos obrigava a experimentar. Mas isso não significa que a experiência terminasse bem.
Hoje existe tutorial para tudo
Agora podemos descobrir como fazer quase qualquer coisa antes mesmo de tocar nela.
Isso evita erros, economiza dinheiro e aumenta bastante a chance de o aparelho continuar funcionando depois da nossa intervenção.
Ainda assim, alguma coisa mudou.
Às vezes procuramos instruções antes de fazer até aquilo que descobriríamos em poucos minutos. Queremos começar já sabendo. Queremos evitar a tentativa errada, o botão inútil e qualquer sinal de que ainda não dominamos o assunto.
Talvez tenhamos ganhado acesso a todas as respostas e perdido um pouco da tolerância de não saber.
Não acho que devamos voltar a abrir aparelhos sem a menor ideia do que estamos fazendo. Eu mesma prefiro um bom tutorial a ter que explicar por que o controle agora tem três peças a menos.
Mas existe algo daquela curiosidade que vale preservar: a disposição de começar antes de entender tudo.
Apertar um botão.
Testar.
Errar.
Tentar novamente.
