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Quando a Vida Deixa de Ser Reconhecível

Existe uma pergunta escondida em Ordinary World do Duran Duran que continua atual mais de trinta anos depois:

"Where is the life that I recognise?"

Onde está a vida que eu reconhecia?

A música foi escrita por Simon Le Bon durante um período de luto. Mas, ao longo dos anos, essa frase passou a me fazer pensar em algo muito maior do que a perda de uma pessoa.

Ela me faz pensar sobre a sensação de viver em um mundo que deixou de parecer familiar.

A maioria de nós cresce acreditando que a vida seguirá uma linha relativamente previsível. Imaginamos algumas mudanças, alguns desafios, algumas surpresas. O que nem sempre percebemos é que boa parte da vida será dedicada a aprender a lidar com aquilo que não previmos.

Mudam as tecnologias.

Mudam os hábitos.

Mudam as formas de trabalhar.

Mudam as amizades.

Mudam os relacionamentos.

Mudam as cidades.

Mudam as prioridades.

E nós mudamos.

Talvez uma das experiências mais universais da vida adulta seja olhar para trás e perceber que o mundo que conhecíamos já não existe mais.

Ele não acabou de uma vez, foi mudando aos poucos.

A internet mudou a forma como nos comunicamos.

Os celulares mudaram a forma como nos relacionamos.

As redes sociais mudaram a forma como nos apresentamos ao mundo.

O trabalho mudou.

O consumo mudou.

A velocidade da informação mudou.

Em muitos aspectos, a vida moderna exige adaptação constante.

O curioso é que quase todo mundo acredita gostar de mudanças quando elas são teóricas.

Gostamos da ideia de evoluir.

Gostamos da ideia de aprender.

Gostamos da ideia de crescer.

Mas quando a mudança chega à nossa própria vida, a conversa costuma ser diferente.

Porque mudança significa abandonar referências.

Significa abrir mão de certezas.

Significa reconhecer que aquilo que funcionava antes talvez não funcione mais.

Acredito que seja por isso que tantas pessoas sentem saudade de épocas que nem eram perfeitas.

A saudade é do passado. É da sensação de familiaridade.

Da sensação de entender as regras do jogo.

Da sensação de saber onde estamos.

Penso que amadurecer tem menos relação com envelhecer e mais relação com aprender a viver em versões diferentes do mundo.

Nenhuma delas permanente.

Nenhuma delas definitiva.

A pergunta do Duran Duran provavelmente continuará sendo feita por muitas gerações.

Porque o ser humano sempre terá dificuldade em lidar com o novo.

E isso não é um defeito, é apenas parte da experiência de estar vivo.

A questão não é evitar as mudanças e sim, descobrir o que permanece em nós quando todo o resto muda.

E você?

O que faz quando não reconhece mais a vida que levava?